Tempo de limpar e desbravar caminhos

Esta é uma época, por excelência, que depois da pausa de férias e da entrada na rotina diária, parece que nos é permitido fazer uma revisão de objetivos e abrirmo-nos a novas visões e a novos caminhos.

Naturalmente, podemos aproveitar a mudança do tempo e do horário de inverno para entrarmos num ciclo necessário de “limpeza”, de seleção e de escolher ficar só com o que realmente interessa e que ainda se identifica connosco… a todos os níveis.

Mas como fazemos isso?

Pela minha experiência, eu afirmo que a melhor forma e a mais prazerosa, é permitirmo-nos entrar num processo genuíno de autoconhecimento. Autoconhecimento que só é possível através da auto-observação acompanhada de reflexão, de auto-respeito e de muito amor-próprio.

Ui, ficou pior… mas como fazer isso?

Eu atrevo-me a afirmar que só é possível se pararmos o ritmo alucinante do dia-a-dia. Poderei corrigir, visto que parar é quase uma utopia, e acrescentar “abrandar” em vez de parar. Abrandar também é bom. Abrandar e observar como se fosse em câmara lenta, num ritmo que nos permite ao sentir, nem que seja um friozinho na barriga, esboçar um sorriso e percebermos que ainda temos tempo de corrigir, melhorar e aprender. Aprender sempre.

Aprendemos se reconhecermos que existe algo para aprender e se existe o entusiasmo em apreender.

Neste momento, o que importa mesmo é aprendermos a deixar para trás o que já não queremos que faça parte da nossa vida. O que importa mesmo é percebermos que, mesmo não interessando mais, tudo se revelou muito importante para sermos quem somos hoje.

Aceitarmos avançar mais leves depois da limpeza é, por estranho que pareça, equivalente a fortalecermos a nossa estrutura interna como seres humanos, deixando para trás as questões que nos inquietaram e que nos fizeram fraquejar e evitar, tantas vezes, que tomássemos uma posição.

Neste momento, o que importa mesmo é perceber que, antes de se avançar para um novo ciclo é imprescindível limpar e abrir espaço. Abrir espaço para o novo, para novas escolhas, novas ideias, novos pensamentos e novos e sinceros sentimentos.

Ao ler o pensamento de Saint-Exupery foi isto que interpretei. Mesmo que nos pareça que as vivências que acumulamos nos sirvam em vão e que os passos dados nos pareçam inúteis, se estivermos atentos vamos entender que, mesmo assim, nos serviram para abrir novas visões e perspetivar novos caminhos.

E assim, o bom mesmo é que consigamos imaginar novos caminhos iluminados de cor… e aceitar desbravá-los com entusiasmo e amor.

Paula Marques Jorge

(Re)desenhar a Vida com Saúde

Hoje, mais uma vez, comemora-se o dia Mundial da Saúde Mental. Para muitos, “saúde mental” é um conceito vago, longínquo até, e que consideram nada ter a ver consigo e com a sua realidade. No entanto, nunca como agora, em que a insegurança e a ansiedade estão presentes no dia-a-dia, se considerou unanimemente tratar-se de um assunto de extrema importância, transversal a todos, e o qual devemos classificar como prioritário.

Também nunca a neurociência foi tão estimulante e nos animou com o facto de termos a extraordinária possibilidade de moldar positivamente a nossa saúde mental através da característica humana da neuroplasticidade.

A Saúde Mental deveria ser, portanto, o bem mais desejado por qualquer ser humano.
Por exemplo, vejam a resposta típica àquela pergunta típica:
– “O que mais queres na vida?”
– “Ser Feliz!”
Agora imaginem a diferença quando todos aprendermos a responder à mesma questão desta forma:
– “O que mais queres na vida?”
– “Eu quero ter saúde mental!”

Uau! Imaginaram? Viram a diferença?
Ter Saúde Mental é ser Feliz, sim, mas a dobrar, a triplicar, sei lá, é tudo o que devíamos desejar ter na vida.

Ter Saúde Mental é ser Feliz, aceitando-nos como somos e gostando de quem somos; é ser-se agradecido, reconhecendo o real valor de tudo o que temos; é saber reconhecer em cada obstáculo uma enorme oportunidade de aprendizagem e de crescimento; é saber parar e refletir antes de decidir; é confiar nos outros sabendo que somos também nós pessoas de confiança; é reconhecer as nossas emoções e saber adequá-las a cada situação; é aprender a reconhecer o nosso próprio valor e saber utilizá-lo, tornando-nos úteis  e mais criativos…

Ter Saúde Mental não é uma característica que se compra numa lotaria. É, independentemente das características de cada um de nós, sermos autênticos, sabermos respeitar a nós e aos outros.

Ter Saúde Mental é abraçarmos a vida de um modo realista e positivo e estarmos disponíveis para aprender a nos adaptarmos às circunstâncias sem perdermos a nossa individualidade e integridade. É saber olhar para o outro e respeitar o que vimos, ao mesmo tempo que, se preciso for, redesenhamos a vida com autoconfiança defendendo em primeiro lugar e sempre fidelidade a nós próprios, com amor, assertividade e dignidade.

Ter Saúde Mental é isto, é saber: Despertar o Sentir, Inovar o Pensar e Entusiasmar o Agir. É aceitarmos o desafio de dar mais cor à vida!

Paula Marques Jorge

Na vida é assim. Mudamos por Amor ou por Dor.

fb7_poco_individualidade-outA nova estação pincela-nos com brisas mais frescas como que a convidar-nos a recolher mais cedo… e assim podermos aproveitar para olhar para dentro, para dentro de nós, do nosso poço.

É o tempo ideal para abrandar, observar, sentir e analisar. É um tempo fértil que nos inspira a irmos ao poço e criar.

O Outono perturba-nos, vibra-nos, mas tem esta virtude. Entra na nossa vida e força que a alteremos. Tal como na Natureza.

Paremos, então.
Paremos para escutar a nossa intuição, sem o medo de olhar para dentro, mesmo que desconfiemos, quase acertando, que o que a amiga intuição nos vai revelando traz à luz do dia a cor da dor.

Na vida é assim. Normalmente mudamos por Amor ou por Dor.
Na minha vida foi assim. Desconfio que assim vai ser.

Também as árvores que foram floridas e cheias de folhas que mudaram de cor, agora deixam de o ser. Naturalmente.
E o que cai e deixa de ser o que era, torna-se noutra coisa. Tão importante como a coisa anterior. Com a ajuda do tempo passa a ser fertilizante, para noutra fase, com a ajuda da chuva, enriquecer e fortalecer.

Na nossa vida é igual. Não é? Nós é que nos esquecemos e amarguramos sem, na maioria das vezes, percebermos que sim, que nós todos, através das escolhas que fazemos, das experiências que vivenciamos, temos uma fonte inesgotável de presente que nos desafia constantemente.

E os desafios não servem para isso?
Os desafios põem-nos à prova, enriquecem-nos e fortalecem. E desafiam-nos uma e mais outra vez. E mais uma ou outra vez, podemos sempre escolher: “dar um murro na mesa” ou… não.

E isso… saber que podemos escolher… inspira-nos uma tal sensação de tranquilidade que nos surpreende.

Aproveitemos para sair nos dias solarengos que ainda nascem por aqui e preparemo-nos para abrandar… respirar, respirar, respirar… e olhar para dentro… e, tornando-nos mais nutridos e mais fortes, iremos encantar-nos com a arte, arte refinada e simples, que há em abundância dentro de todos nós.