As Miúdas d’Hoje

Ao longo do ano, existem dias comemorativos que nos levam a refletir sobre determinados temas. Umas vezes para os valorizar, celebrar, aplaudir e outras vezes para apontar o dedo a alguém, lamentar e alertar para o muito que, ainda, há a fazer.

O Dia da Mulher tem todas estas facetas. Identificam-se e valorizam-se mulheres que sobressaem em campos profissionais mais tradicionalmente “vocacionados” para os homens, celebra-se a capacidade e o poder feminino e ainda… e ainda se tem que alertar para o muito que há a fazer…

Este ano não vai ser diferente. Volta-se a falar sobre os direitos, desigualdades, discriminações, etc… e imagino que este ano ainda se vai colar ao tema do Dia a recente discussão pública sobre o assédio sexual no mundo do desporto, da moda, do cinema…

As minhas filhas, que são Miúdas d’Hoje, inquietam-se com tudo isto. Questionam-se e questionam-me. Já não aceitam ver realidades tão duras de se ver. Já não aceitam ser tratadas como as Mulheres d’Amanhã.  Querem ter voz hoje, querem ser respeitadas, querem ser valorizadas, querem ser simplesmente o que são: Seres Humanos.

E eu entendo-as.

Acredito que todas as Miúdas-Mulheres d’Hoje por esse mundo fora que vivem em situação vulnerável, seja por que motivo for, também o entendem.

Acredito que todas as mães e filhas, portanto Mulheres, que vivem dependentes completas e de direitos incompletas que, para terem direito à sobrevivência, submetem-se  a situações desumanas.

Acredito que todas aquelas que não têm o direito a estudar, não têm o direito de escolher por quem se apaixonam, não têm o direito de opinar seja sobre o que for, também o entendem.

As Miúdas d’Hoje pertencem a uma nova geração.  Uma geração pluri, multi e inter. E é com orgulho legítimo que observo diariamente as minhas a esforçarem-se, não para serem melhores mulheres, mas sim melhores Seres Humanos.

Não é a isto que fazemos propaganda como se fossemos exemplo? O que será que nos falta?

 

 

 

Adoro Ser Mulher

Adoro Ser Mulher. Imaginem esta frase dita com uma voz encorpada. Segura. Sincera. Em jeito de afirmação porque a grandeza da sua simplicidade dispensa qualquer tom de exclamação.

Imaginem só… sentiram?

Agora é a minha vez:
– “Eu Adoro Ser Mulher”.

Ok. Já o disse. Respiro fundo… consegui faze-lo sem utilizar um tom a roçar o histérico ou um tom afónico, sem a manifestação de qualquer tom.

Consegui dize-lo, mas nem sempre foi assim… houve vezes em que a vida me levou a alterar o tom.

Em miúda lembro-me de desejar ser rapaz… parecia-me que, se o fosse, tudo seria muito mais fácil… e ainda agora, se pensar bem, existem momentos, diria os menos equilibrados (vá-se lá saber porquê!), que adoraria ser tudo menos mulher…

Mas sem precisar de pensar muito, apercebo-me que cada vez menos vivencio momentos desses… talvez porque, cada vez mais, Adoro Ser Mulher. De verdade. De forma inteira. Sentida. Vivida. Colorida.

Adoro Ser Mulher-Mãe, Mulher-Filha, Mulher-Companheira, Mulher-Amante, Mulher-Amiga, Mulher-Empreendedora, Mulher-Cidadã, Mulher-Voluntária, Mulher-Dona-de-um-Cão…até mesmo Mulher-Dona-de-Casa…

É deveras desafiante! Por isso a necessidade de se treinar a voz e dar-lhe corpo. É preciso corpo de Mulher para se dizer Adoro Ser Mulher. É preciso Sermos Mulheres (Mulheres com M grande)…embora às vezes aconteça sentirmo-nos mais mulheres do que Mulheres.

Mulheres com M grande marcam posição e fazem revoluções. Revoluções pessoais.
Revolucionam-se. Por dentro. Observam o que sentem. E, se não se sentem bem no seu Ser, mudam. Decidem começar a mudar. E avançam. Sem ilusões. Só com a verdade.

Mulheres com M grande têm amor-próprio e vontade como força. Não precisam de viver a vida a olhar para o lado, para dentro de um livro ou de um filme. Aprendem a ser responsáveis pelas suas escolhas, não precisam desejar as escolhas e as conquistas das outras …

Mulheres que amaiúsculam o M escolhem viver, em vez de sobreviver. Têm vontades e não desejos.

Desejos são impulsos. Vontades são fortes quereres.

Desejos satisfazem carências, dependem de outros e são satisfeitos pelos outros.

Vontades merecem-se, são independentes ao mesmo tempo que, livremente, podem interdepender de outros.

Desejos sonham-se e alcançam-se por compensações. Vontades fazem-se e fazem-nos chegar.

São as Vontades que nos diferenciam. Podem assustar, acelerar o coração e fazerem-nos parecer loucas, mas transbordam coragem para, sem exclamar nem balbuciar, sem máscaras nem disfarces, conseguirmos dizer tranquila e maravilhosamente:
– “Adoro Ser Mulher”.